NAVEGAR

São Paulo, 10 de Julho de 2021

Ele começou conhecendo o mar. Sua imensidão, sua beleza, a alegria que o mar lhe trouxe.

Aos poucos, dia a dia, foi criando amizade com mar. Foi conquistando e sendo conquistado. A cada dia um passo para dentro, a cada dia mais tempo juntos. As vezes o clima não era bom, ondas e ventos fortes, as vezes o sol brilhava em suas águas. As vezes estava revolto, as vezes estava cristalino. E todos os dias ele estava lá, cada vez mais próximo, cada vez mais encantado pelo mar.

O encanto aumentava e ele queria mais e mais estar com mar. Estar no mar. Viver no mar. Planejou. Ele e o mar. O mar e ele. Ele falava com o mar e o mar se comunicava com ele, com suas ondas batendo em suas pernas, com a brisa em seu rosto. Com sua força, com sua resistência, soberano, o mar estava lá. Sempre estava lá.

Um dia, olhando para o mar, sentiu que era chegada a hora. O mar mandou a madeira, lindos troncos vindos de algum lugar longínquo, e ele fez o barco e foi para o mar.

O mar estava calmo, limpo, o sol brilhava em suas águas. Fornecia alimento e ele sorria ao sabor do vento. Mas ele não percebia que, de algum forma, estava tentando controlar o mar, mesmo sendo isso completamente impossível. Queria que o mar desse peixe quando eles queria. Queria que a correnteza fosse na direção que ele queria.

O mar começou a ficar revolto. Começou a ficar escuro. O grande mar. Aquele onde todos podiam navegar. Aquele que podia ter seu destino em suas mãos, levar suas correntes marítimas onde desejasse. O mar se sentia preso a esse pequeno barco sobre ele, como um espinho fincado em sua pele.

Mas o mar é incontrolável. O mar é soberano. É mais forte que tudo e que todos. O mar fica revolto ou calmo quando desejar. Só tem cardumes quando quer. Esquenta ou esfria ao seu bel prazer. O mar é absoluto.

Ele se viu pequeno junto ao seu barco, perdido na imensidão do mar. Chegou à tempestade. E dessa vez não tinha como fugir dela. Anos e anos no mar, sempre virando o timão para não encontrar com tempestade, sempre tentando domar o mar.

Mas o mar é soberano, é dono de si.

A tempestade cresceu, e veio com toda força. Distraído, ele entrou na tempestade. Não havia percebido que que o mar estava se achando controlado por ele e a que tempestade era a forma do mar se comunicar.

Ventos fortes, mar agitado, ondas de 20 metros encobriam o barco. Ele tentava se agarrar as cordas, tentava se agarrar ao mastro, confiando no estrutura e força do barco. Ele rezava para que o barco fosse forte o suficiente.

Ele não sabia se ia sobreviver aos ventos, a chuva, as ondas. Se barco resistisse, sabia que nunca mais seria o mesmo. E nem o mar. Se ele saísse vivo, se o barco não naufragasse, ele tinha certeza que daquele dia em diante ele e o mar teriam um “novo acordo”. Ele poderia viver com o mar, ir atrás dos cardumes e de terras desconhecidas, mas o mar poderia banhar o continente que quisesse, quão distante desejasse, enquanto ele estaria bem em seu barco, indo para direção que seu leme estivesse virado. Juntos seriam mais fortes, e separados, iriam mais longe.

No fim do dia, ao cair da noite, a tempestade se dissipou. O mar, ainda agitado, estava diferente. E ele, cansado, também. Era hora de esperar. Os ventos ainda estavam fortes. A chuva, branda, ainda caía sobre o barco. As ondas eram cada vez menores.

Mas o mar… o mar é soberano. Soberano de suas vontades, de si. O mar precisa lembrar que é o mar, e não uma bacia de água com um barquinho de papel sobre sua vasta planície de água.

O mar é soberano.

Foto por mskathrynne / Pixabay

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