São Paulo, 15 de Julho de 2021

Chorar é uma expressão do corpo e da mente. É quando nossas emoções transbordam, sejam elas alegres, tristes, eufóricas, preocupadas, amedrontadas.
Algumas pessoas choram fácil. As emoções transbordam à toda hora e os olhos vertem as lágrimas. Parece simples, parece libertador. Acredito que seja mesmo. Que chorar seja uma expressão libertadora daquilo que se sente, daquilo que se pensa. Se fosse possível escutar ou ler as lágrimas, elas com certeza estariam cheias de palavras e de gritos, na alegria e na tristeza. As lágrimas são feitas de água, mas aquele gosto único, meio salgado, meio doce, deve ser feito pelas palavras.
As lágrimas têm sabor de soro caseiro. Aquele soro que a mãe prepara quando você não está bem. O soro, puro e simples, água, açúcar e sal nas proporções certas, que pode salvar uma vida, pode alimentar um corpo desnutrido.
Talvez seja isso. Talvez as lágrimas sejam o alimento da alma. E quando as produzimos, vemos as poucas que saem dos olhos. Devem ser o “excesso”, o que vaza. Pois a grande maioria deve estar sendo enviada para o coração, para nos acalmar. Deve alimentar nossa paz, deve confortar nossa mente. Mas elas têm que “vazar”, pois é o alarme que nos avisa de sua produção.
Mas e quem não chora? Ou quase nunca chora? Será que isso tem algum significado? Essa pessoa é “insensível”? Ela não precisa desse alimento? Todos podem chorar, todos deviam chorar. Mas uns simplesmente bloqueiam o choro. Se enganam, escondem as emoções de si mesmo. E o que acontece? O corpo “dá seu jeito”. Costas, cabeça, estomago, garganta, intestino…
Então chorar é uma premissa básica para o bom funcionamento do corpo? Também não! A premissa básica para o bom funcionamento do corpo e aprender a viver a vida como ela se apresenta. E lutar pelas mudanças que deseja, e lutar pelo que acha importante. É ter menos motivos para chorar de tristeza e preocupação, e mais motivos para chorar de alegria e emoção. E buscar sempre estar bem consigo mesmo. E aceitar que valores mudam, que importâncias mudam, que nós mudamos o tempo todo. Mas que a beleza da vida é isso. É o dia a dia. E aprender todos os dias. Lutar todos os dias. Vencer as vezes, desistir jamais. Mudam as lutas, mas a guerra permanece a mesma. A guerra pela alegria, pela paz interior, pela vida plena, pelos sonhos e desejos daquele momento, pelo que importa, mesmo que mude constantemente.
Queria chorar. Queria chorar mais. Mas estou no grupo dos que bloqueiam. Para mim o choro é como o estourar de uma barragem. Está lá, sendo represado, represado, represado. Quando estoura, não tem controle e leva tudo que está na frente. Até que acaba a água, a barragem é consertada, e tudo que foi destruído muda, pois nada fica como era antes da passagem da água. Só aqueles que já presenciaram meu choro sabem o que estou dizendo.
“O choro é livre”.
Mas as emoções, pelo visto, nem tanto.
Foto de joseph_Berardi/Pixabay