AMIZADE HOMEOPÁTICA

São Paulo, 11 de Novembro de 2021

Quando nascemos temos uma conexão direta com a mãe, com os pais, com os tutores. São nosso mais próximos amigos. Temos o contato direto, diário, constante. Alguns ainda tem irmãos, o que aumenta esse grupo de contatos constantes. Nem sempre ficaremos amigos dos pais, dos irmãos, dos tutores. Mesmo com o contato quase ininterrupto.

Quando temos o mínimo de consciência, começamos a criar amizades. E com elas temos nosso contato frequente. Com essas amizades queremos brincar o tempo todo. Sonhamos juntos, passeamos juntos, imaginamos juntos. Queremos o máximo de tempo com eles, pois eles nos completam, nos distraem, nos divertem.

Essas amizades infantis as vezes ficam com o passar do tempo. São apenas lembranças. Não chegam a fazer tanta “falta”, pois fazem parte de um momento muito inicial. Aos 8, 9, 10 anos começamos a ter amizades mais fortes. Aquele momento entre a infância e a juventude. São amizades com quem compartilhamos nossos primeiros planos, projetos, mesmo que aqueles mais bobos, que mudarão depois. Mas continuamos querendo esse contato constante, mais e mais, o tempo todo. Com as redes sociais e os comunicadores instantâneos falamos muito mais agora que na época apenas do telefone. Ficávamos horas pendurados. Agora, é o tempo todo. E as crianças começam cedo.

Chega a juventude. Hormônios a flor da pele. 13, 14, 15, 16, 17 anos. Festas, passeios, colegial, shows, baladas, paqueras, sexo. Tudo é intenso. E nos agarramos à aqueles amigos próximos. Criamos os amigos fiéis. Aqueles que levaremos para vida toda. E com eles falamos exaustivamente. Fazemos tudo com eles. É delicioso. É um momento incrível da vida. E vem o namoro.

Que fase deliciosa. Namorar uma pessoa. Ou diversas (ao mesmo tempo ou não). Não importa. É aquela pessoa que você quer e faz praticamente tudo. “Que fase, amigos! Que fase”. Declarações, cartas, bilhetes, mensagens, telefonemas, viagens, planos. Tudo e tudo e tudo. Mantemos as amizades, mas diminuímos o contato frequente, pois o contato maior é com a pessoa “enamorada”.

Então chega o casamento, a união, a junção. Pouco importa o nome ou a condição jurídica ou religiosa. Você decide que deseja viver o dia a dia com aquela pessoa. É com ela que você dividirá suas noites, sua cama, seus medos, seus sonhos, seus desejos, suas vitórias e suas derrotas. Essa pessoa será, acima de tudo, sua maior amiga.

Alguns “casais” são unha e carne. Estão grudados e fazem tudo junto o tempo todo. Outros são mais distantes. São unidos, firmes, mas tem suas vidas individuais em equilíbrio com a vida em conjunto. E ainda tem os que ficam pouco tempo junto. Fazem quase tudo separados. E mesmo assim podem ser muito amigos e confidentes. Isso é ser um casal. Essa união, essa compreensão, esse apoio, essa paixão, esse desejo, esse pensar junto, construir o presente e o futuro, da forma que o casal tiver “acordado” entre si.

Quando, por qualquer (ou diversos) motivo um casal vem a se separar, uma quebra é feita. Se o desgaste era grande, se havia distanciamento físico e psicológico, se havia brigas, raiva, tristeza, desgostos, então a amizade já havia ido embora. A cumplicidade, a vontade de conversar, conversar e conversar, já havia passado faz tempo. Então, quando acontece a separação, tudo é quase “normal”. Pode, e vai, acontecer dor e tristeza. Mas os amigos, novos ou antigos, suprirão essa falta do contato, da conversa.

E quando um casamento acaba mas, até pouquíssimo tempo, pelo menos para uma das partes, a outra parte era “a/o amiga/o da vida”? Você passou meses, anos de sua vida conversando sobre tudo, o tempo todo, com aquela pessoa. E adorava. Não queria parar nunca. Não cansava. Não acabava o assunto. E era bom. Bastava. Os outros amigos e familiares estavam lá para conversas esporádicas. Você continuava gostando muito de todos. Queria conversar com todos. Mas não “o tempo todo” como com aquela pessoa.

A separação da “esposa/marido” dói. Claro que dói. Mas a separação da/o amiga/o dói muito, muito mais. É como se seu melhor amigo se mudasse para outro pais, de fuso horário diferente, ou para atividades diferentes, e você não pudesse mais falar com aquela pessoa que você falava todo dia, o dia todo, sobre tudo, de assuntos super complexos à banalidades.

É um vazio assustador. Nada nem ninguém consegue ocupar aquele espaço. Tudo que você vê, lê ou pensa, quer compartilhar com aquela pessoa. E já não pode. Ou não deve.

Descobri que amizade é um contato homeopático. É aquele que você recebe em pequenas doses o tempo todo. E para alguns casos, a dose precisa ser de 10 em 10 minutos. Pequenas doses, o tempo todo. E as vezes doses maiores, por mais tempo.

É difícil o fim de um casamento. É o fim de um sonho, um projeto, um caminho, um desejo, uma paixão, uma relação, uma vida que chega ao fim. Fim mesmo. É necessário reconstruir tudo, por dentro e por fora. Talvez ainda seja possível manter a amizade com “sua” ou “seu” “ex”. Mas NUNCA será igual. Nunca!

O fim de uma amizade, dessa amizade cumplice, direta, constante, homeopática, te destrói. O que sobra?

Um imenso buraco.

FOTO POR florentiabuckingham|PIXABAY

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