São Paulo, 21 de Maio de 2021

Olho para as minhas mãos. A pele está saindo. Sempre está saindo. Seca.
A pele está seca. Não só das mãos. A pele está desidratada. O corpo está desidratado. Desidratando pouco a pouco. É a passagem do tempo.
Inevitável, o tempo apenas passa. Os segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. Apenas passa.
O tempo trás e leva pessoas. Uma das pessoas que o tempo trouxe para mim à pouco, mas que já tenho em alta estima, me ensinou que o tempo não trás nada, pois ele não faz nada. Ele apenas passa. Essa é a função dele. Passar.
Nesse tempo começamos pequenos, frágeis, desprotegidos. Somos dependentes de outros para tudo. Na passagem do tempo aprendemos a crescer. Nos tornamos maiores, independentes, donos de nosso tempo.
Ledo engano…
O tempo faz apenas sua função. Passar…
Em algum tempo seremos maiores que nosso próximo. Pode ser uma criança ao qual veremos o tempo passar juntos. Mas também pode ser um idoso. Já tive a oportunidade de me sentir grande, tanto ao lado de meu avô quanto de minha avó. O tempo que lhes restava era notoriamente menor que o tempo ao qual já haviam vivido. E não foram poucos anos. Para ambos, mais de 90. Ali eu me tornei grande. Protetor. Cuidador. Ouvinte. Companheiro. Ou apenas um pouco “mais” de tudo isso.
A pele de ambos era mais seca que a minha. Mas com muito mais história. Suas mãos haviam traçado linhas e mais linhas, cruzado centenas de vidas. Em cada ruga, em cada cicatriz, uma história. Não havia mais como hidratar uma pele que a passagem indelével do tempo havia castigado. Mas era possível hidratar seus corações, seus ouvidos, seus olhos com palavras e presença. Apenas isso. Desnecessários presentes. Necessária presença.
Assim também são as centenas de idosos que tive a honra de conhecer no Lar Vicentino. Mas ali não me sinto grande. Me sinto pequeno novamente. Pequeno por achar que faço tão pouco por eles. Tão pouco pelo quanto cada um deles merece. Quantas histórias suas rugas e suas peles também não tem para contar. Mas sigo lutando, dia a dia, e fazendo o melhor que posso.
Olho novamente para minha mão. Ela é forte. Ela é firme.
Que ela possa ter a força para ajudar à tantas outras que precisam.
Ps. Saudade eternas, Babunha e Vô Olindo. Obrigado pelos mestres que foram. Vó Nega, te amo!