O TREM

São Paulo, 3 de Setembro de 2021

Era uma cidade de camponeses. Uma cidade calma, tranquila, arborizada. Pequenas casas, famílias reunidas, preocupações comuns.

Porem o progresso era iminente. A futuro rasgou as montanhas com seu trem flutuante. Um trem que não fazia barulho algum. Durante o dia era possível olhar para os grandes paredões de pedra das colinas e ver o reflexo do sol nos vagões que passavam rapidamente. Era uma via de mão única. Os trens apenas iam de leste para oeste.

Aquele jovem camponês se encantou pelo trem. Quanto brilho. Quanta velocidade. Para onde poderia levá-lo. Que aventuras existiram em seu destino. Ele descobriu onde era a estação mais próxima. Juntou suas coisas, juntou a coragem, deixou seu passado para trás de foi atrás daquele sonhos prateado.

Ao embarcar no trem tudo era vislumbre. As comidas, as bebidas, as pessoas. As paisagens ao seu redor. Ainda não sabia para onde estava indo, mas sabia que o caminho importava mais que o destino. Em seu vagão havia uma moça, linda, de bom papo. Estava sozinha, mas conversava com todos ao redor. Eles logo se aproximaram e começaram a conversar.

Sempre que o trem passava em um túnel dava a sensação que o tempo e o mundo haviam parado. Nada aparecia nas janelas. Nenhum barulho era emitido pelo vagão. Parecia que tudo havia congelado do lado de fora e agora só o movimento dentro do vagão existia, das pessoas e dos lábios da linda moça.

Alguns tuneis passaram, algumas paisagens passaram. A noite chegou. Os passageiros foram para suas cabines, menos a bela moça. Na escuridão noturna a entrada e saída dos tuneis tornou-se imperceptível. O tempo passava, passava, e a bela moça não apresentava a mesma alegria de horas atrás. Não havia mais ninguém por perto pois todos haviam se recolhido. Nada de novo acontecia nas ultimas horas. E o rapaz, encantado, não saia lado da moça, pois para ele tudo era vislumbre naquela lugar, naquela situação, naquela bela dama. Por educação, ela se mantinha ao seu lado. Mas a conversa havia se tornado um monólogo de histórias enfadonhas sobre coisas do campo.

Porem muito tempo passou, horas até, e ninguém mais apareceu. Os dois se deram conta que estavam sozinhos no trem. O trem estava parado mas não tinham percebido. Absortos em si mesmos, ele pelo encanto e ele pelo tédio, não perceberam que o trem havia quebrado dentro de um túnel escuro e silencioso. Todos haviam saído e os deixado para trás.

Eles tinham três alternativas. Podiam permanecer no trem esperar para ver se ele voltava a andar. Podiam tentar consertar juntos o trem para colocá-lo novamente na linha e ambos irem para o destino juntos, mesmo não tendo a menor ideia de como fazer isso.

Ou podiam sair do trem. Só que, ao sair, cada um teria a liberdade para ir para direção que quisessem. Talvez nunca mais se vissem. Talvez seguiriam caminhos totalmente diferentes. E por um tempo, ambos ficaram ali, parados, olhando pela escuridão da janela, esperando que uma luz viesse e iluminasse suas mentes sobre qual caminho era melhor para cada um deles. Independente da decisão, estavam certos que apenas um não permaneceria no trem. Ou ficam os dois, ou saiam os dois.

Tudo que eles sentiam era o medo, angustia e solidão. O jovem não estava mais encantando com a situação, muito menos com a bela dama. E ela estava sem capacidade de decidir, presa ao pânico. Já estavam longe demais de onde tinham partido. Voltar não era mais uma opção. Não importava a decisão a ser tomada, em qualquer um dos três cenários, precisariam seguir em frente.

E como acaba essa história? Não sei. O trem está escuro. O túnel está escuro. Talvez eles ainda estejam lá. Talvez tenham saído. Talvez tenham morrido. Talvez tenha se matado. Ou talvez tenham apenas adormecido. Pouco importa. Pois na vida não importa a decisão que seja tomada. O que realmente importa é tomar uma decisão, seja ela qual for.

Ilustração por PhoenixRisingStock|Pixabay

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